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SWING FILOSÓFICO – Sociedade do cansaço e medicalização da vida

Várzea Alegre/CE, 24 de Agosto de 2021

A escrita científica exige do seu interlocutor uma construção teórica onde não há pessoalidade. Ou seja, o escritor deve sempre escrever em terceira pessoa, sem posicionar-se, se não for referenciado, “validado” por outra pessoa.

Porém, contudo, entretanto, todavia, sem perder o rigor científico, vou falar sobre uma temática, redigida em primeira pessoa, diga-se de passagem, que perpassa cada um de nós, em nosso cotidiano, que é a questão de construção de uma sociedade do cansaço/desempenho e a medicalização da vida, casamento perfeito de uma sociedade mais focada em produzir, do que questionar-se sobre aquilo que é produzido e qual o objetivo dessa produção.

Mesmo as pessoas que não acreditam em algum sistema/dogma religioso, endeusa, louva, venera o sistema capitalista, nossa maior religião, que transcende qualquer entendimento sobre Estado, sobre a condição humana, que permeia nossa forma de ser e existir no mundo. Isso fica claro quando questionamos o mundo, até mesmo as divindades, menos o sistema socioeconômico no qual estamos imersos, com todo o processo de desigualdades sociais e violações aos Direitos Humanos que tal sistema traz em seu bojo.

Focando na temática em questão, o conceito de Sociedade do Cansaço é de autoria do filósofo Byung Chul-Han, filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Afirma que nosso funcionamento social está pautando numa positividade excessiva, tóxica, onde o preceito fundamental é o desempenho individual extremado, com cada um de nós sendo “microempresários de si”. Isto é, não precisamos de um poder disciplinar (Michel Foucault bate palmas nesse momento), como o Estado, a Igreja, a Família, ou qualquer outra instância que nos controle. O próprio sujeito se cobra no intuito de sempre produzir cada vez mais e mais, para sentir-se pleno e feliz, esgotando-se ao longo dessa caminhada, plena nossa clara limitação biológica, psíquica e social de intervir sobre si e sobre o mundo.

Em vez de sofrermos por uma “violência imunológica”, sofrimento externo ao sujeito e que invade o seu corpo, numa perspectiva de negação do outro e de tudo referente a alteridade (as doenças contagiosas como grande exemplo), a violência passa a ser neuronal, pois sofremos pelo esgotamento que advém das nossas próprias escolhas, onde pagamos o processo do nosso próprio sofrimento mental como condição de ajuste e performática social valorada por nós mesmos, tendo como ápice a Depressão e a Síndrome de Burnout como consequências dessa empreitada.

Nesta teoria, o outro possui pouco poder de influência sobre cada individualidade, haja visto que nos tornamos cada vez mais seres individualistas e menos empáticos quando nos referimos ao sofrimento do outro, quando vemos mais de 500.00 mil mortes pela Covid-19 em solo nacional e um DJ famoso que agrediu a esposa de uma forma explícita e brutal e fazemos pouco caso de tais fatos, gerando engajamento e admiração por aqueles que nos violentam. Isso ocorre porque nos boicotamos do direito de sentir a dor de existir em toda a sua plenitude. 

Sobre a medicalização da vida, tendência dos últimos anos para dar conta do nosso sofrimento, que nada mais é do que condição inerente ao existir humano. Ao invés de buscarmos processos terapêutico que façam uma arqueologia, um resgate aprofundado das nossas potencialidades enquanto seres humanos, apelamos a medicação como objeto que tampona o sofrimento, para que não tenhamos que lidar com o mesmo. É uma estratégia interessante, tirando o fato que não se pode estra dopado as vinte e quatro horas do dia, portanto, o sofrimento sempre vem à tona, e, como criança mimada que é, senão for bem acolhido e cuidado, torna-se cada vez mais cruel e intransigente, por não possuirmos ferramentais efetivas para lidar com o mesmo

Também posso citar como exemplo o “doping intelectual”, fenômeno referente ao fato de pessoas sem nenhum sofrimento mental leve ou grave/persistente, utilizarem-se de medicamentos psicotrópicos para aumentar seu desempenho cognitivo/intelectual, para produzir mais e estar plenamente inseridos na ótica do rendimento constante e otimizado. A que ponto iremos chegar, para buscarmos um lugar ao sol, se dentro do molde capitalista, terminaremos a vida doentes, pobres e desprezados por aqueles a quem demos nossa vida, nosso suor e nossas lágrimas? (O paraíso sempre será gozado apenas por aqueles já eleitos).

Devemos lutar para produzir uma sociedade que promova bem-estar e qualidade para todos nós, sem necessariamente nos perdermos nesse processo, talvez seja o melhor ensinamento que Byung Chul-Han busque nos repassar.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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