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SWING FILOSÓFICO – Para além do Setembro Amarelo: o suicídio da vida cotidiana

Ontem, dia 6 de Setembro, apresentamos mais um Swing Filosófico, religiosamente às 18 horas de todas as segundas-feiras. José Lopes e eu, no comando a bancada, tendo como convidada a psicóloga Danilane Costa, renomada profissional da nossa cidade.

Debater sobre o Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, aos agravos em saúde mental ou da valorização da vida, conforme queriam denominar, vai de encontro ao bem mais inalienável do ser humano, objeto de intensos e extensos debates teóricos: a própria vida.

Antes que valorize-se a vida, que estimule-se o apego ao viver e estimule-se ao desejo, devemos nos questionar acerca de qual vida estamos defendendo, haja visto que incorremos no risco de, em nossas práticas discursivas e vivenciais, fortalecer processos de alienação e de perpetuação das desigualdades, fruto da necropolítica (poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer) de muitos governos, fato bastante agravado em nossa realidade política brasileira, disputada “a tapa” por políticos corruptos e com os objetivos mais escusos/nefastos possíveis.

Antes de defender e vida pela vida, sem nenhuma espécie de criticidade, talvez seja interessante pensarmos que o sofrimento, a angústia e até mesmo os transtornos mentais, que aumentam a probabilidade do suicídio, possuem fortes marcadores coletivos, denominados pela ciência de “determinantes sociais da saúde”. Não devemos deixar de levar em consideração que o sofrimento tem recorte de gênero, orientação sexual/identidade de gênero, etnia, classe social, que marcam a forma como indivíduos e coletividades se percebem perante a relação consigo próprio e com o outro.

Ou seja, o processo de adoecimento do homem “pessoa física”, é produto sintomático do adoecimento da “pessoa jurídica” (todos nós enquanto sociedade”). Porque, sem hipocrisias ou papas na língua, constitucionalmente o sujeito que procura abreviar a sua própria vida, não comete nenhum crime (quem incita/estimula o suicídio, comete crime passível de punição). Lança-se na verdade, um clamor para que a dimensão das amorosidade seja efetiva em nossos lares, promovendo-se acolhimento, afeto e escutas sem julgamentos, isto é, laço social.

Quando percebemos que existem, em contexto de pandemia, quase seiscentos mil mortes e processos de luto não vividos, milhões de trabalhadores informais (sem direitos trabalhistas), milhões de desempregos, miseráveis, sujeitos em sofrimento psíquicos sem cuidado qualificado, drogaditos, dentre outros, demonstra-se a falência do Estado em garantir a dignidade humana dos seus cidadãos e que o sistema capitalista, estimulando o consumo desenfreado de objeto e corpos, não forma laço social, fragiliza as relações humanas e nos destrói dia após dia.

Devemos, no final das contas, defender políticas públicas mais fortes e efetivas (o SUS como um dos grandes exemplos), combater incisivamente o desmonte proposto pelo Estado aos direitos já adquiridos e a busca por mais direitos garantidores da dignidade humana, objeto maior de nossa busca por uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

A defesa por terapêuticas que venham a tamponar o sofrimento, tornando o homem um ser puramente funcional, para viver na doentia lógica produção-consumo, resulta no estímulo aos pequenos suicídios da vida cotidiana, que acabam por se tornar o nosso imperativo ético. A clínica psicológica é política, pois promove empoderamento e conscientização do sujeito em relação a si mesmo e ao mundo. Não há neutralidade na ciência, isso é fato, mas fingimos demência perante diversas injustiças sociais cometidas cotidianamente. Essa é a ciência que queremos promover? Fica o questionamento.

O processo de comunicação também deve seguir esse mesmo viés, pois a comunicação, seja presencial ou virtual, que não promove indagação e reflexão, são palavras/escritas jogadas ao vento, inúteis para o povo, mas que pode alimentar a síndrome de pavão que existe em cada um de nós.

O programa, na minha humilde opinião, mostrou-se uma construção riquíssima para aqueles que desejem aprofundar-se acerca do Setembro Amarelo e de todos os seus desdobramentos.

Tirando um pouco do peso de tantas palavras difíceis ditas nos parágrafos acima, queridos leitores, ainda conversando sobre saúde mental e a título de conclusão, para quem aproveitou o dia do sexo (6/9) com intensidade, meus mais sinceros parabéns. Precisamos de mais AMOR, CARINHO e TESÃO para superar os nossos momentos caóticos, a nível individual e coletivo. Aquilo que se faz por amor, está além do bem e do mal, como já dizia tão sabiamente Friedrich Nietzsche.

Confiram nosso episódio no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=cjaCbuhNzAA&t=3246s

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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