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BRUNO SIEBRA – Deus acima de tudo, o Rei acima de todos

Eram tempos obscuros, mas a luz já anunciava sua chegada: Os séculos XV ao XVII marcam uma guinada das instituições humanas à racionalização. A Igreja, vendo sua plenitudo potestatis rechaçada pela formação dos Estados Nacionais, reorganiza-se para manter-se próxima ao poder dos reis, antes figurativos, agora absolutos. Os reis, alicerçados na burguesia em ascensão contínua e no Mercantilismo metalista que os empoderavam e enriqueciam mais e mais, buscavam fortalecer as estruturas que os mantinham soberanos. Neste contexto efervescente, não poucos teóricos surgiram, dentre estes Bossuet e Hobbes, nestes, atentar-se-á este texto.

Enquanto em séculos precedentes, João Quidort e Egídio Romano discutiram fervorosamente a distinção entre Estado e Igreja – numa querela por vezes pueril de quem era a primazia do domínio sobre corpo e alma dos homens; em tempos renascentistas, com muito descrédito e vendo largo decréscimo no número de fiéis, a Igreja Católica Apostólica Romana fez jus ao ditado popular: “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Ao invés de disputar a superioridade, o Cristianismo legitima-se como origem do poder absoluto dos monarcas. Desta forma, ao invés de repelir, os reis manter-se-iam próximos à fé, como instrumento de dominação das massas, pois questionar o Rei seria questionar a vontade de Deus sobre a Terra.

É nisto que se assenta a Doutrina do Direito Divino dos Reis, que encontra em Jacques Bossuet um expoente, um proeminente defensor. Em sua obra “Politique tirée des propres paroles de l’ Ecriture Sainte”, o autor é incisivo em naturalizar a monarquia como organização de poder na sociedade, quase como uma lógica irrefutável de que os homens “nascem todos súditos” (BOSSUET, 1967). Destarte, quaisquer tentativas de questionar a legitimidade do poder real e seus mandos e desmandos – a França e seus Ludovicos que o digam; eram repelidas como heresia. Isto numa realidade onde a Inquisição era uma sombra ameaçadora, tinha uma força retórica incontestável.

Obviamente que mesmo diante das pressões havia quem remava contra a maré, como Nicolau Maquiavel, em seu “Príncipe”, marco na racionalização e pragmática da teoria política, um contrassenso ao dogmatismo católico, mesmo que numa defesa do poder centralizado. Neste conjunto é possível também enquadrar Thomas Hobbes e o seu contratualismo. Longe de ser um democrata, Hobbes, ao observar a natureza do ser humano, via-se como que impelido a defender um poder centralizador que aplacasse as pulsões deste “lobo” voraz e traiçoeiro que forma, num conjunto improvável de coesão, uma sociedade.

Para Hobbes (2001), o que mantém a massa de “máquinas humanas” sob o regime de um só, ou de poucos – não se pode atribuir a este autor uma defesa do Absolutismo; é um contrato invisível, do qual todos os indivíduos que compõem uma mesma sociedade são signatários. Este contrato implica a cada um viver a sua vida, enquanto delega que outros controlem a grande máquina social através de um governo forte.

Desta forma, ora aproximando-se, ora afastando-se em suas defesas, Hobbes e Bossuet foram homens de seu tempo. Hobbes clamava pela centralização política em uma Inglaterra em efervescência e inconstância. Bossuet, ordenado padre, apesar de ter deixado o bispado, manteve-se fiel às superestruturas de poder na França de seu tempo: o Rei – na sua forma de poder absoluto mais clássica; e o Cristianismo, numa sociedade extremamente desigual.

Décadas mais tarde à sua obra, a Inglaterra de Hobbes viria o alvorecer da Revolução Gloriosa, o triunfo do racionalismo pragmático burguês sobre o Antigo Regime. Décadas mais tarde, a França de Bossuet se descobriria iluminada, revolucionária, até questionadora do poder real, mas que serviu mais de inspiração teórica do que exemplo de aplicação das teorias ali surgidas na célebre Revolução Francesa.

Séculos mais tarde ao pensamento destes dois autores, democracias periféricas e frágeis ainda se veem aturdidas por aqueles que, como Hobbes, defendem um Estado forte e enérgico. E pior de tudo, há aqueles que, na cartilha de Bossuet, se autoproclamam representantes incontestáveis da vontade divina na terra, num sopro de absolutismo que teima em sempre varrer, enquanto o povo segue medieval, ajoelhado ante a cruz que não deseja, mas que não consegue deixar de carregar sobre os ombros cansados e brasis de suor, lágrimas e sangue. Quem sabe um dia, gloriosa, chegue a Revolução.

REFERÊNCIAS
BOSSUET, Jacques-Bénigne. Politique tirée des propres paroles de l’ Ecriture Sainte. Geève: Droz, 1967
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, Coleção Os Pensadores, 2001

Bruno Siebra é graduado em Jornalismo, História e Letras, Pós-Graduado em Língua Portuguesa, Arte-Edcação, Gestão Escolar, Coordenação Pedagógica e Tutoria em Língua Portuguesa. É jornalista, diretor da Atual Online, professor no Instituto de Ensino Sátiro Siebra, lecionando também em cursinhos e no Ensino Superior. É músico, cantor, compositor e escritor, com três livros publicados.

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