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SWING FILOSÓFICO – Angústia: a falta que a falta faz

Nesta última segunda-feira, o Swing Filosófico tratou da Angústia, que segundo Jacques Lacan, psicanalista francês, é o único afeto que não engana, que não mente. Lembrando que amor e ódio, dentre outros, também são exemplos de afetos.

Numa sociedade em que o imperativo é a produção e o consumo, o que fazer com um afeto “inútil”, que nos causa apenas mal-estar? diversos teóricos tentam dar conta de dimensionar o sentido da angústia na existência humana

Concordo com Maria Homem (psicanalista brasileira), que afirma que apenas o fato de falarmos sobre o afeto, já traz apaziguamento, diminuição do mal-estar, haja visto o efeito que a travessia da angústia proporciona: um encontro genuíno e autêntico conosco. É uma expressão da nossa subjetividade, um encontro com o Real, que prontamente é rechaçada pelo nosso temor perante o processo de dessubjetivação, que trata-se do mecanismo de anulação da subjetividade perante o tecido social do qual fazemos parte, a perca de todos os referenciais do sujeito perante o mundo ao qual pertence.

Perante a angústia, no afinal das contas, quem será capaz se enfrentar, a ponto de desvelar-se enquanto pessoa?

Enquanto sociedade regida pelo mito da eterna felicidade, nosso primeiro mecanismo de defesa perante a angústia é tamponar/anular a subjetividade, eliminar o vazio, que não some, mesmo perante a melhor das companhias, seja humana ou divina. É um vazio de significados, cuja reponsabilidade de preenchê-lo é do próprio sujeito, que deve bancar o desejo de ir além da angústia que o habita.

Como nosso tecido social, permeado pela crença utópica, insana, idiotia e ridícula de que estar feliz a todo tempo é o nosso padrão de excelência, deixando de levar em consideração todos dos afetos ditos “negativos”, recorremos a medicalização da vida, atrelada aos grandes conglomerados farmacêuticos (medicamentos psicotrópicos), ao fenômeno da drogadição, por meio do opióides, as drogas e o álcool ou aos diversos vícios da vida cotidiana (sexo, consumo exacerbado, pornografia, dentre outros). Resumo da obra: derrubamos a nossa consciência, a ponto de mais nada sentir, nem mesmo a tão almejada felicidade.

Por outro lado, a obrigação de ser feliz é imperativo ético da sociedade do consumo, como não podemos consumir de forma ilimitada objetos e pessoas, há algo que emerge da falha desse processo, denominada de angústia. Porém, devemos lembrar que a angústia é constitutiva de nossa existência, portanto, retirar a angústia do sujeito é, em certa medida retirar-lhe a face, retirar-lhe algo que lhe é constitutivo, que o permite interagir com o mundo e consigo.

Quem pratica a psicanálise, como José Lopes e eu, apresentadores do programa Swing Filosófico, sabe o quão perigoso é retirar o sintoma do sujeito (os “defeitos” que nos acompanham), pois tais aspectos sintomáticos podem configurar-se como os pilares que mantém em estado de sanidade aquela existência.

A repetição de comportamentos que para os sujeitos são disfuncionais, contudo, sempre voltam a serem prontamente praticados, por mais que tenha-se ranço, vergonha ou ojeriza aos mesmos, demonstra, no dia-a-dia, que sintomas, inibições dos mais variados tipos e angústia, são edificantes, estruturais. Ou seja, falam do modo de ser no mundo, de existir de todos nós enquanto sujeitos consciente ou sujeitos do inconsciente (sujeitos de nossa própria intimidade).

Espero que o nosso querido leitor consiga compreender que a angústia tem uma dimensão de visceralidade, ou seja, ela diz algo sobre o nosso desejo, sobre o nosso íntimo, que quase nunca conseguimos denominar, mas encontra-se ali fazendo furo, mostrando que não estamos tão plenos assim.

Concluo, afirmando de forma categórica, que a angústia é um movimento fundamental para o seguimento da vida, pois implica em dar uma forma, alguma vazão, algum norte ao que é disforme, aquilo que nos torna seres sofríveis. É preciso não ceder diante da angústia, deixar de lado as anestesias da vida. É fundamentalmente necessário passar pelo não-sentido da angústia para retomar os sentidos, para dar um novo sentido ou um novo rumo à vida e ao desejo.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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