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BRUNO SIEBRA – Por que tantos se matam na “terra da alegria”?

Há alguns anos, quando uma reportagem do Globo Repórter procurava exemplos de gente que conseguia sorrir mesmo nas condições mais adversas, a cidade de Várzea Alegre foi sugerida e compôs a matéria. Houve um uso político que deu à cidade a alcunha de “cidade mais feliz do Brasil”, mas é bom deixar claro logo de início, nem a matéria da TV Globo nem nenhuma pesquisa científica jamais comprovou essa alcunha.

Temos a alegria no nome, supostamente vinda da expressão de espanto do dono destas terras quando avistou o que hoje é o Parque Cívico São Raimundo Nonato. Há quem conteste essa versão, mas como não temos uma História Oficial escrita, fica valendo a versão da tradição popular.

Embora a alegria nos cerque em nosso nome, temos um alto índice se suicídios, de tão comuns que já nos habituamos com noticias do tipo. “Escandaloso”, diria Simone de Beauvoir, porque o maior dos escândalos é quando nos habituamos com eles. E quando se trata de saúde mental, não apenas nos habituamos, mas depreciamos, colocamos a culpa na fraqueza do outro, na falta de fé do outro, o problema é o outro, e se não me toca, que tenho eu a ver?

Ferir-se conscientemente, esperando como resultado a morte, eis o suicídio em sua definição. E nisto me prendo a Émile Durkheim ao entender que, em todos os casos, o problema está no excesso ou na falta de socialização, ou seja, no processo que nos inclui em sociedade. Ao considerar o suicídio como fato social, o pensador francês coloca contra a parede aqueles que pensam não ter nada a ver com este momento de encerramento voluntário da existência. E por mais que a obra “O Suicídio“, de 1897 já tenha sido atualizada por um século de árdua pesquisa científica e atuação da Psicologia, ainda é basilar quando se trata de dizer: “ei, o problema é seu também, é nosso”.

Quando o laço que nos une ao todo da sociedade se rompe, por qualquer motivo, quando as pressões para que estejamos aceitos na sociedade são demais ou mesmo quando nos integramos tanto a um sistema superior e coercitivo que isso exaure nossa existência, o sentido da vida se esvai.

A esmagadora maioria dos suicidas é homem, porque homem não chora, porque homem tem que ser forte – sem que o conceito de força seja nunca explicado, porque homem tem que andar e agir e falar e sentir como homem – e pouco é permitido sentir; quem não consegue andar na linha é atropelado pelo trem a inexistência do ser.

Numa terra de fantasia, de aparência, simulacro de felicidade, os que conseguem encontrar em si mesmos rica fonte de inspiração e alegria são sufocados pela solidão de ser si mesmo, à parte do padrão. Numa terra sem perspectiva, sonhar é sempre saltar de um precipício pra acordar quebrando a cara. Não há o que fazer a não ser se submeter a anular-se a si mesmo e transformar-se em outro, para sobreviver, aliás, para subviver.

Mesmo o Japão, onde os 70 casos de suicídio por dia, tem como gatilhos deste ato extremo a cultura, a solidão, a falta de perspectiva, o isolamento tecnológico, um governo que não age como deve agir e uma mídia que trata a saúde mental como circo.

Enquanto não acordarmos, a corda continuará fazendo o seu trabalho… e tem sido árduo, na terra da alegria.

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