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SWING FILOSÓFICO – Round 6: o retrato fiel do Capitalismo e da Sociedade do Espetáculo

Vivemos na sociedade do espetáculo, já diria o pensador marxista francês Guy Debord, sendo que podemos definir o espetáculo como o conjunto das relações sociais que são mediadas pela imagem, acumulada ao longo dos anos de uma forma quase que irrestrita, para apreciação e consumo humano, semelhante a comida que nos alimenta, a água que bebemos ou o ar que respiramos.  

Para compreendermos a função da imagem, basta observarmos o quanto cultuamos o recorte bonito da felicidade alheia, por meio das redes sociais e o quanto a vida privada, transformada no novo público, como afirma Zygmunt Bauman, nos excita e prende a nossa atenção, para algo presente cotidianamente em nós mesmos, a inaliável vontade de nos sentirmos vivos e sermos reconhecidos pelos nossos pares.

Lembrando, para o nosso estimado leitor, que na sociedade do espetáculo, há a impossibilidade de separarmos as relações sociais e a relação de produção e consumos de mercadoria, pois as relações interpessoais, políticas, religiosas, tudo encontra-se mercantilizado e envolvido pela égide da imagem. Afinal de contas, “quem não é visto, não é lembrado”, mote de um propaganda que escuto constantemente em minha cidade. Talvez, aquilo que não é visto e não é lembrado, seja o realmente vivido. Fica esse questionamento para que cada um dos leitores faça juízo de valor sobre essa questão.

Tais argumentos nos ajudam a analisar, e, talvez compreender o sucesso da série Round 6, da Netflix, produção coreana que retrata a sociedade do espetáculo em sua primazia e encanta aos olhos daqueles que a assistem, liderando o ranque da série mais assistida dessa plataforma de streaming.

Sem spoilers, para não atrapalhar as vivências dos leitores que ainda não contemplaram a obra, vou tentar analisá-la a partir de uma perspectiva crítica ao sistema capitalista do qual fazemos parte.

Porém, o que autor compreende por capitalismo? Sempre afirmo, inclusive em várias falas do programa Swing Filosófico, que o capitalismo é o nosso maior sistema religioso, cultuado por todos os habitantes desse humilde planeta do sistema solar, nunca efetivamente criticado ou reformulado, sempre amado e respeitado.

O capitalismo possui um Deus (o Mercado), divindades menores que o representa (os super ricos, estampados cotidianamente nas capas das revistas e na internet, lugar de desejo de quase todo ser vivente), um dogma (o consumo irrestrito, sem limites), um rito (as relações mediadas pela moeda de troca denominada de dinheiro) um mito fundador (o da meritocracia como fator de ascensão social), um paraíso (o lugar de pleno consumo, seja de bens, serviços, corpos ou subjetividades) e o inferno/submundo (o lugar de exclusão e opressão pelo qual a maioria da população mundial passa cotidianamente). A felicidade nesse sistema socioeconômico é destinada a poucos eleitos. Como sempre afirma um grande amigo, “gozemos” (de quem ou para quem, eis a questão).

Na ordem da pessoalidade, compreendo-o como um sistema gerador de desigualdades sociais, que enfraquece o Estado e fragiliza as relações sociais, colocando-nos num lugar de não pertencimento ao tecido social do qual fazemos partes. O próprio Jaques Lacan, grande psicanalista francês, em seus seminários, deixava bem plano que o discurso do capitalista não forma laço social.

Voltando a nossa análise da série, eis alguns pontos dignos de nota, pata analisarmos nos parágrafos abaixo: Falsa igualdade; Desigualdade, violência e injustiça; Dinheiro acima da vida; Individualidade; e, Espetacularização da miséria.

Percebemos, logo de início que para participar dos jogos, para se tornar objeto de gozo ao olhar alheio, só cabem na brincadeira os párias, o sujeitos que estão em um estado de desesperança e desespero tão grande, que abdicariam facilmente da sua vida para tornar-se minimamente valorosos aos seus, dignos de estarem inclusos no meio social ao qual pertencem, ou seja, ricos não entram no jogo, pagam para ver, gozam com o sofrimento alheio, sem arrependimentos e culpas, garantidos pelo anonimato de suas ações.

A espetacularização de miséria é o mote principal da trama, haja visto que a pobreza e a desigualdade são o motor do entretenimento dos patrocinadores dos jogos, haja visto que submeter-se ao ridículo, abrir mão de sua própria existência, só cabem aquelas pessoas que não tem mais nada a perder, além do funcionamento orgânico do corpo. Quem de nós, em algum momento, não viu em nossos programas de TV, pessoas fazendo coisas absurdas e muitas vezes vexatórias, humilhantes e ridículas, para ganhar um quantia de dinheiro que garantiria um certo bem-estar financeiro? Tudo sobre o olhar atento de milhares ou milhões de pessoas, que vibram e entretém-se em doses homeopáticas, repetidas infinitas vezes. Ética e dignidade humana nem sempre enchem barriga, nem garantem sobrevivência, sabem todos aqueles que passam por situações de pobreza ou extrema pobreza.

O jogo é focado na individualidade. Apenas um vence, apenas um consegue milhões de reais para “zerar a vida”, tendo que, para isso, eliminar a alteridade, a diversidade da experiência da vida humana, nesse caso representada pela morte física do meu concorrente. No dia a dia, quantas vezes não disputamos de forma feroz recursos com outrem. Basta ver uma entrevista de emprego, por exemplo, na qual o melhor sempre vence, desde que possua o recorte étnico, de gênero e a orientação sexual desejada pelos empregadores ou bem quista socialmente.

A vida humana possui valor? Se o leitor crê que não há dinheiro no mundo que a pague, recomendo rever um pouco seus conceitos. Há valores e valores da vida humana, a depender do quanto o sujeito pode contribuir, entre muitas aspas, para o desenvolvimento social. Como exemplo, podemos perceber que é praticamente irrisório o valor da vida humana dos moradores de periferia, cabendo muitas vezes como método de sobrevivência, pela ausência de políticas públicas que visem a justiça social, a inserção desses sujeitos no mundo da criminalidade e a consequente utilização de mecanismos da necropolítica e da higiene social, para eliminar-se a alteridade. Então sim, o dinheiro está acima da vida, como a série demonstra claramente, onde cabendo a decisão de pararem os jogos diversas vezes, as pessoas escolheram sempre o dinheiro, independente no quão amoral fossem as decisões. Objetificar o outro, para conseguir dormir à noite e buscar o tão sonhado prêmio, era a regra do jogo.

Como fazer pessoas disputarem um jogo onde a vida está em constante risco? Por meio da sensação de uma Falsa igualdade. O sistema capitalista, com o discurso meritocrático, é facilmente burlável, haja visto que aqueles que possuem mais, saem na dianteira, por possuírem em si o domínio dos capitais “econômico”, “cultural”, “social” e “simbólico”, conforme preconiza Pierre Bordieu, grande pensador francês. No jogo, percebe-se que apesar de ser constantemente validado e revalidado a igualdade de oportunidades no jogo, diversos subversões foram praticadas por atores presentes na disputas. Afinal de contas, conhecimento é muito mais efetivo do que a utilização de força bruta para dominar o outrem.

Por fim, desigualdade, violência e injustiça é o ápice do conjunto, a regra de ouro dos jogos propostos, onde o comando feito pelos poderosos, como realmente ocorre em nosso sistema socioeconômico e político, decide aqueles com maiores chances de vencer. O sentimento de justiça é dubio e questionável, conforme pode ser compreendido em cada episódios e na relação entre cada um dos participantes. Ganha quem da forma mais rápida e cirúrgica possível, conseguir manipular as situações a seu favor.

Dentro de uma sociedade da transparência, que de acordo com Byung-Chul Han (pensador coreano radicado na Alemanha), trata-se um fenômeno imprescindível para compreendermos a exposição pornográfica a qual nos submetemos para adentrarmos de forma efetiva no tecido social, por meio de todo o aparato cibernético existente, controle se exercer pelo que consumismos na tela de nossos celulares. Aquilo que deveria ser benéfico e importante, escraviza, nos consome e adoece.

Round 6 é a famosa série “engana besta”. Você lê a sinopse, acha que é fraquinha, que não vale nada, assiste e se apaixona facilmente. Esse foi o meu caso. Recomendo que ao amados leitores assistam-na com olhar de águia, tentando absorver o máximo de conhecimento da mesma, que tem muito a nos ensinar sobre a forma como nos organizamos enquanto sociedade. Você participaria dos jogos? Ainda hoje me questiono se seria capaz, em um estado de desespero extremo, de adentrar naquele recorte de realidade tão violento e agressivo.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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