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SWING FILOSÓFICO – O Desejo da Economia e a Economia do Desejo: O Brasil e suas atuais (im)possibilidades

O programa desta semana ampliou o debate sobre Economia Doméstica, anteriormente realizado em nossa emissora, pensando questões fundamentais para analisarmos as nossas atuais impossibilidades, enquanto indivíduos e enquanto coletividade. Gerar lucro é o alicerce central do sistema capitalista, porém toda produção exige o consumo, senão é produção vazia, o pretenso lucro perde-se, cessam-se os investimentos nas atividades produtivas, e, consequentemente, o sistema entra em crise (talvez seu maior trunfo e eterno garantidor da sua existência).

Trabalhar o Desejo da Economia e a Economia do Desejo, antes de mais nada, é pensar o consumo humano, que diga-se de passagem, não deve ser demonizado, haja visto que trata-se de uma atividade básica da vida humana, vital para a nossa condição existencial, caracterizada pela busca de recursos materiais ou simbólicos que permitam a manutenção saudável do organismo e da própria existência. Então, se o consumo é algo natural a vivência humana cotidiana, porque o criticamos?

Devemos, primeiramente, diferenciar consumo de consumismo. O consumo, como dito anteriormente, faz parte do existir humano, vital para a sua sobrevivência. Por outro lado, o consumismo trata-se do processo de subversão ao consumo, algo da ordem do excesso, além do necessário para garantir as necessidades humanas básicas, uma satisfação incontrolável de desejos, que nunca cessa, alimentando e retroalimentado atualmente pelo próprio sistema de difusão publicitária, que tem como ícone maior as grandes marcas. Ou seja, o capitalismo somente prospera e se sustenta a partir das inclinações consumistas dos indivíduos. Nosso maior sistema religioso reina soberano, livre, leve e solto, com seus Messias profetizando aos quatro ventos que o paraíso virá para aqueles que estiverem mais imersos nessa lógica.

Concordo plenamente com uma fala do nosso convidado, o Professor Mestre Laclércio Rodrigues, quando afirma que não temos como objetivo, enquanto analistas sociais, criticar as pessoas que tem condições e pretendem empreender. O micro e pequeno negócio são extremamente importantes para o país, mas é no mínimo irracional pensar que em uma sociedade, enquanto pessoas reviram a lata de lixo em bairro nobre da nossa capital Fortaleza, uma pequena minoria tornou-se bilionária. Impensável uma sociedade possuir tantos extremos e nós, enquanto coletivo, batermos palmas e achar que está tudo bem, obrigado, segue o baile

Evoco o conceito de homo sacer, do Giorgio Agamben, para afirmar categoricamente que a vida humana vale a partir do quanto o sujeito é capaz de consumir. Quem não consome, é pária, mal visto, não desejado pelo ordenamento social. Para o autor supracitado, há vidas que são indignas de serem vividas, que são do ponto de vista jurídico e político, irrelevantes parta o Estado, podendo ser automaticamente eliminada. A perca do bem jurídico da vida dos brasileiros que estão em condição de extrema miséria (passando fome) e insegurança alimentar (metade da população brasileira, diga-se de passagem) é tão grande, que sua continuidade, tanto para o ser como para o tecido social, perde totalmente o valor.

O Desejo da Economia e a Economia do Desejo relavam duas facetas do mesmo ser humano: o homo economicus e o homo consumens.

O homo economicus trata-se do homem econômico racional, que evita o trabalho desnecessário, por meio do seu julgamento racional, conseguindo, consequentemente, maximizar as suas riquezas. Um analista de todos os custos de oportunidades envolvidos nas diversas tomadas de decisão. É o ser fruto da “mais valia”, absoluta ou relativa, conforme pensam os teóricos marxistas. Abstrair o homem de sua realidade, por meio da sua capacidade de produzir e gerar lucro, colocando-o num patamar acima do reles homem comum, deixa de levar em consideração o laço social como vital na produção subjetiva e material.

Por sua vez, o homo consumens é o fruto (ou a borra) do mundo capitalista, o ser vivente que subjetiva-se por meio do consumismo, consumindo bens materiais, na tentativa, muitas vezes vã, de tamponar a angustia, fundamental apontamento para o Real (seja do corpo ou da realidade psíquica deste sujeito), conforme preconiza Jacques Lacan. Não há referencial social sólido, o consumo e a virtualização das relações, subproduto perverso de nossa sistemática social, fragilizam ainda mais as relações, fato que Bauman denomina de modernidade líquida. Despersonaliza-se o sujeito, o laço social, o afeto, a dimensão da amorosidade (que deveria ser tão natural quanto respirar).

As impossibilidades brasileiras estão pautadas no fato de somente buscarmos desenvolver, enquanto sociedade, o desenvolvimento do capital econômico, cabendo o exercício do capital social, cultual e simbólico a poucos escolhidos. Ao demais, o Estado, com a devida permissão de todos, subjuga por meio da Violência Simbólica, a perpetuação/naturalização de determinados valores culturais tidos como corretos, como, por exemplo, a eliminação da alteridade pelo fortalecimento de um Estado policialesco e militarizado.

Cabe aos seres minimamente pensantes, que pode e deve ser cada um de nós, haja visto que pensar está fora de moda e em desuso, imaginar e lutar por um sociedade mais justa, equânime e igualitária. Afinal de contas, conforme a passagem bíblica, muitos são chamados (para pensar o social de uma forma diferenciada), mas poucos são escolhidos (ou que se permitem ampliar horizontes)”.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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