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SWING FILOSÓFICO – O empreendedorismo na escola como discurso aliado da necropolítica

Empreender como ferramenta de superação das adversidades socioeconômicas, trata-se de um mito ou realidade? Qual o papel da educação nesse processo? Uma política de morte por parte do Estado, de eliminação total da alteridade, intitulada de necropolítica pelo pensador africano Achille Mbembe, faz parte desse processo? Essas foram apenas algumas das questões trabalhadas em nosso debate da segunda-feira, onde nossa banca foi ocupada pelo professor Dr. John Mateus Barbosa, docente dos cursos de nível superior do IFCE Campus Iguatu.

Esmiuçando o conceito de empreendedorismo, percebemos que o conceito ganha força a partir da década de 1980, por meio de uma reorganização radical do sistema capitalista, que passou a ser denominada posteriormente de Neoliberalismo, acentuando de uma forma violenta as disparidades sociais já existentes. Esse discurso surge da disputa mercadológica das empresas globais, que precisavam inovar-se perante um mercado consumidor cada vez mais exigente.

A partir dos anos 90, o empreendedor passa ser a pessoa física, focando-se, dessa forma, em características individuais, por meio da atuação do SEBRAE, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, “… entidade privada sem fins lucrativos. É um agente de capacitação e de promoção do desenvolvimento, criado para dar apoio aos pequenos negócios de todo o país”. Uma definição bonita, interessante e tenho certeza que tem como objetivo apoiar as pessoas que pretendem tornar-se autônomos, gerar crescimento e lucro ao país. Todavia, a busca crescente e muitas vezes incessante de investir no próprio negócio, como ótica de sobrevivência, podem nos trazer apontamentos bastante interessantes do não papel do Estado em garantir os direitos básicos de seus cidadãos.

Empreendedorismo pode ser definido como a capacidade que o ser humano possui de projetar ou idealizar transformações inovadoras ou arriscadas (qual negócio não envolve risco, no final das contas?) em companhias ou empresas. Trata-se da vocação, habilidades e aptidões para descontruir, gerenciar e desenvolver projetos, atividades produtivas ou negócios. Todo o corpo teórico-vivencial existente nesse processo.

Não desejo demonizar o empreendedorismo, tendo o entendimento da importância do mesmo e das micro e pequenas empresas para o crescimento nacional, mas nossas discussões apontam para o fato de que empreendedorismo refere-se tanto a grandes empresários que fizeram empreendimentos dentro de uma falsa trajetória meritocrática, mas também refere-se aos pequenos trabalhadores informais que buscam garantir o próprio sustento por meio de sua força de trabalho e criatividade, porém não devemos deixar de levar em consideração que o pequeno empreendedor é subcategorizado de acordo com a sua raça/etnia (afroempreendedorismo), gênero (empreendedorismo feminino) ou de outros marcadores identitários não-hegemônicos. Ou seja, mesmo nessa ótica de “livre trabalho”, há marcadores sociais que influenciam o “tão sonhado sucesso”, inclusive o processo educacional é vital nesse entendimento.

O conceito de empreendedorismo ganha novas configurações a partir da expansão das mídias sociais. Quem não acredita no discurso dos influencers, que afirmam e reafirmam a meritocracia da internet, na promoção e enriquecimento fácil do empreendedor? As crises do capital oportunizam que o mesmo evolua a velocidades absurdas, adaptando-se e sendo prontamente adotado por outros. Nosso universal sistema religioso não falha em ganhar adeptos, suas almas, mentes e corações. Nem a maior praga do Egito se mostrou tão efetiva em garantir seu objetivo-fim.

Voltando nosso olhar a educação, os processos educacionais fazem parte de uma tentativa de docilização do corpo humano, por meio de processo de alienação que visam a manutenção do status quo, processo denominado de biopolítica pelo pensador francês Michel Foucault, mas especificamente no Capítulo “Corpos Dóceis”, do livro Vigiar e punir, onde afirma que na segunda metade do Século XVIII, no surgimento do sistema capitalista, necessitava-se da criação de um soldado ideal, de um serviçal completo, que gerasse lucro sem contestação.

O processo gradual, sutil e contínuo que possibilitaria essa domesticação do corpo e do desejo, corrigindo posturas adversas, moldando o corpo como um todo, condicionando-o ao trabalho, independentemente do custo orgânico, emocional e social ao trabalhador, foi denominado de “disciplina”, possuindo como seu bastião e maior defensor o sistema educacional da época, realidade que não modificou-se ao longo dos séculos. A educação ainda tem como objetivo formar peões de chão de fábrica, não possuidores da capacidade de refletir e questionar a sua própria realidade vivencial, denominado na modernidade líquida (Bauman) de forma gentil de “empresário de si” (Foucault) ou simplesmente “empreendedor”.

O professor John traz uma perspectiva interessante, ao afirmar que as reformas do Ensino Médio, por meio da nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), implodem a construção de um pensamento intelectual, por priorizar apenas as disciplinas como português, matemáticas e as demais voltadas ao ensino técnico. Anular as ciências humanas claramente é o projeto neoliberal de produzir trabalhadores qualificados para gerar lucro, constantemente ameaçados pela inseguranças das leis trabalhistas, projeto patrocinado por grandes nomes do mercado financeiro nacional.

O pior desse processo, é sobra de uma massa imensa de pessoas que não possuem valor algum, pois nem mesmo encontram-se enquadradas no Exército Industrial de Reserva (Karl Marx), ficando a mercê do Estado, aplicador da mais radical das formas de Violência Simbólica (Pierre Bordieu) e de Biopolítica (Foucault) que pode ser perpetrados contra os cidadãos de uma nação, denominado de necropolítica pelo pensador africano Achille Mbembe.

Necropolítica pode ser compreendida como o uso da soberania do Estado para escolher quem vive e quem morre, dentro e fora dos seus limites territoriais (lembremos dos refugiados, que morrem expatriados, sem acolhimento de outras nações, que fecham suas fronteiras para a dor de milhões que buscam abrigo). Tal processo ocorre por meio da negação da humanidade o outro, fato que justifica qualquer forma posterior de violência, desde agressões, até a morte.

O uso ilegítimo da força, o extermínio, as políticas de inimizade (divisão amigo-inimigo), a contestação das políticas públicas, o descontrole econômico, dentre outros, são fatores fundamentais para pensar-se o achatamento dos coletivos empobrecidos (Miguel Arroyo) e o seu extermínio, pela bala das forças policiais, crime generalizado ou pela ausência de políticas públicas que eliminem as desigualdades sociais. A materialização mais violenta, segundo Mbembe, da ótica da biopolítica foucaultiana. O estado não deve matar, mas acolher, cuidar. O lugar de desrazão da política não é bem-vindo, haja visto os custos materiais e humanos que tal compreensão acarreta.

Como necropolítica e educação se aliam? Por meio do processos de alienação dos estudantes, que passam a ter disciplinas como empreendedorismo como ponto de partida para a busca de um “Projeto de Vida”. Questiono ao leitor: qual o projeto de vida que um cidadão comum brasileiro, vindo das camadas mais inferiores da pirâmide social, pode possuir? Fica aqui o questionamento.

Por fim, o novo proletariado, digamos assim, composto pelos empreendedores informais, pelos motoristas de aplicativo, entregadores de fast foods e demais profissões subproletarizadas, tem feito uma tomada de consciência a muito tempo perdida pelos sindicalistas e movimentos sociais, onde no limite da existência, revoltam-se com o tratamento oferecido pelo Estado ao seus rebanho. Assim, despertam o melhor de nós, o laço social, cada vez mais fragilizado e perdido, pela constante virtualização das relações, inclusive as relações trabalhistas. Que possamos nesse espírito revolucionário, construir um projeto de nação, justo, igualitário e equânime.  

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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