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SWING FILOSÓFICO – Michel Foucault: o grande ensaísta do social

Pensamos o mundo a partir de um recorte cada vez mais especializado, sem muito espaço para pensarmos a partir de perspectivas mais universalistas, que pense a ciência e o social de uma forma ampliada, sem o risco de um tecnicismo embrutecedor, que aliena o homem a pensar o mundo a partir de relações (trabalhistas, sociais, acadêmicas) simplistas e esvaziadas de sentido.

O pensador desta segunda-feira é um dos maiores intelectuais do Século XX, que trabalhou ao longo da sua história assuntos relacionados a filosofia, história das ideias, teoria social, filologia, crítica literária, dentre outros. Trata-se de Michel Foucault, intelectual francês, um dos principais responsáveis por revolucionar o olhar sobre o homem e sobre o mundo no século passado.

Nosso convidado de honra, o Mestre Fernando Gimbo, professor de Filosofia da UFCA. Nosso objetivo? Esmiuçar ao máximo a vida, obra e conceitos do autor, na tentativa de clarificar ao máximo a extensão de tamanho arcabouço teórico-vivencial produtivo ao longo de mais de 30 anos de intensa produção acadêmica e intelectual, seja por meio de livros escritos, conferências ou cursos ministrados. Materiais densos, porém encantadores de serem explorados.

Como podemos pensar o Século XXI, a partir de uma ótica foucaultiana? Talvez seja enveredar por um viés mais negativista, haja visto a constante fragilização do laço social. o ser humano, dentro de uma ótica neoliberal, passa por um processos de despersonalização/dessubjetivação, tornando-se dentro do capitalismo um Capital Humano, conforme preconizado pela Escola de Chicago (que defende o livre mercado), com sérias influências sobre as individualidades de cada um dos praticantes das relações humanas.

Levando-se em consideração que tal sistema socioeconômico encontra-se cada vez mais próximo do seus limites de expansão, haja visto que na pior das perspectivas, os recursos naturais se esgotarão, há a necessidade de alocação desses recursos humanos e também dos “capitais culturais, econômicos, sociais e simbólicos” (Pierre Bordieu), que encontra-se concentrado na mão de poucos e exclusivos. Como o exército industrial de reserva (Karl Marx), num contingente populacional cada vez maior, encontrou também limites aos que podem ser captados pelo mercado, existem sujeitos que não possuem função social válida, vidas que não serão requisitadas (Judith Butler), sendo prontamente descartáveis, processo denominado de necropolítica por Achille Mbembe (pensador africano).

A necropolítica trata-se da radicalização de um dos conceitos fundamentais da obra foucaultiana, denominado de biopolítica. Compreende-se tal conceito como a forma que o Estado elege a vida como objeto de administração política. Mecanismos biológicos como higiene, alimentação, longevidade, sexualidade e natalidade são objetos de controle estrito por parte das políticas públicas populacionais, desde mecanismos mais sutis, como estratégias para manutenção da saúde dos corpos, para alongar o tempo de devoção a produção de capital e lucro empresarial, como políticas radicais de controle populacional, sendo um dos exemplos a China, que limita a quantidade de filhos que um casal pode gerar e cuidar. Influências diretas sobre o corpo, os estados de saúde, processos subjetivos, ou seja, a vida como um todo.

Voltando o olhar novamente ao laço social, talvez a nossa maior aposta para a superação do processo de “subjetivação assujeitada”, com todas as violências implícitas a tais processos, pode-se perceber que a interpretação por meio da teoria foucaultiana é pessimista, tendo em vista que na contemporaneidade ou modernidade líquida, se o referencial de análise do leitor for a obra de Zygmunt Bauman, “as pessoas não tem amigos, elas têm Networking”, frase impactante dita por nosso convidado ao longo do diálogo.

Trabalhamos em prol de redes de contato, trocando apenas informações que nos favoreçam e que sejam relevantes a serem construídas por meio de colaboração e ajuda mútua, mascarada por um fetiche predatório, um afeto agressivo, onde a relação somente é frutuosa se trouxer ganhos significativos. Nenhuma outra possibilidade é válida, tendo em vista a extrema precarização do mundo do mundo do trabalho e dos campos relacionais.

O outro lado do laço social, o conflito no campo ideológico, ético e político, é substituído por um sentimento oceânico (Freud), que visa a universalização dos processos vivenciais, a eliminação da alteridade e o ganho individual irrestrito. O “empresário de si” também é o patrono do próprio processo de esgotamento físico, mental, intelectual e relacional.

Por fim, compreende-se, de forma bastante semelhante ao pensamento de Simone de Beauvoir, que não se nasce sujeito (conceito fundamental da obra foucaultiana), mas torna-se sujeitos, dentro de toda a ótica discursiva presente em nossas relações intersubjetivas, permeadas por nossa relação com o saber e a verdade dentro de toda a microfísica do poder a qual estamos submetidos. Preza-se pela liberdade na construção do sujeito, mas até que ponto somos livres?

Trata-se de um programa de inestimável valor para aqueles sujeitos que pretendem pensar um pouco além do lugar comum, abrindo espaços para intensas construções intelectuais e enveredamentos a caminhos nunca antes descobertos.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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