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SWING FILOSÓFICO – Toxicomania: o fracasso da relação com o outro

Hoje vamos falar sobre toxicomania, ou simplesmente a relação de dependência biológica e psíquica a substâncias lícitas e ilícitas e mais recentemente, a medicamentos psicotrópicos para dar conta do processo vivencial humano, fenômeno cada vez mais comum, haja visto que o mito da eterna felicidade mostra-se ilusório, porém vendido como produto a pronta-entrega.

Primeiro questionamento a ser realizado: seria a toxicomania o nosso próximo estágio evolutivo? Tal pergunta faz sentido quando vemos os dados acerca do consumo de substâncias químicas legalizadas: em 2018, anos antes da pandemia, a população brasileira utilizou cerca de 56,6 milhões de caixas de medicamentos para ansiedade e para dormir. Tais dados constam nas plataformas do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados), sistema vinculado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

As principais substâncias consumidas são as seguintes: alprazolam, bromazepam, clonazepam, diazepam, lorazepam, flunitrazepam, midazolam e zolpidem. Os sete primeiros são benzodiazepínicos (ansiolíticos), conhecidos popularmente como traja preta, que depende de receituário especial para ser comercializado. O último, o zolpidem, trata-se de um hipnótico utilizado nos casos de insônia, vendido por meio de receitas duplas simples (uma via para o paciente e outra para a farmácia, com validade de 30 dias), sendo exigido receituário especial somente para a apresentação do medicamento de 12,5 mg (esse sendo tarja preta).

No que concerne a utilização de drogas ilícitas, cerca de 275 milhões de pessoas utilizaram-se de drogas ilícitas no ano de 2020, de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2021. Cerca de 36 milhões sofreram com transtornos associados ao uso de drogas. Como estudioso da questões referentes a toxicomania, compreendo que tais dados passam por um processo de subnotificação, como outros fenômenos sociais, como a violência de gênero e a violência sexual, por exemplo. Prejuízos bilionários aos Estados-nações e aos sistemas públicos de saúde em todo o mundo advém do tratamento a sujeitos em sofrimento psíquicos oriundos do consumo abusivo de álcool e outras drogas. Trata-se, de fato e de direito, de nossa maior pandemia, ainda maior do que a Covid-19 e com potencial avassalador de destruição dos laços sociais.

Por trás dessas estatísticas chatas, citadas nos parágrafos anteriores, uma triste realidade: provavelmente perdemos a capacidade de lidar com o processo de mal-estar típico do processo civilizatório humano, contidos em obras freudianas tais como “O futuro de uma ilusão (1927)” e o “Mal-estar na Civilização (1930)”, recorrente de forma cada insistente e repetitiva ao consumo de toxicômanos para tamponar a angústia (vide seminário 10 de Lacan sobre a angústia) inerente a tais processos. 

No programa desta segunda-feira, José Lopes e eu, tentamos desbravar os caminhos possíveis para a compreensão da toxicomania, de uma perspectiva analítica pautada em textos  científicos e percepções da clínica com sujeito toxicômanos, haja visto o entendimento comum entre ambos de que tal fenômeno é multifatorial, possuindo fortes marcadores sociais, tais como questões de gênero, raça/etnia (como bem preconizou Anderson Varella), classe socioeconômica, dentre outros, que determinam, inclusive, quais substâncias serão por indivíduos e coletividades e quais serão as abordagens do Estado aos consumidores ativos de tais substâncias.

Afinal de contas, a quem interessa a questão da drogadição? No mercado lícito e ilícito de substâncias, bilhões de reais são movimentados anualmente, sendo que, independentemente de campanhas repressivas por parte do Estado, as pessoas consumirão aquilo que quiserem consumir, a partir da ordem do excesso, sejam comida, bebida, sexo, dentre outros. Afinal de contas, dentro do funcionamento perverso do sistema capitalista, o gozar pelo excesso do consumo é via de regra e fórmula certeira de alcançar a tão sonhada felicidade, objetivo-fim da salvação em qualquer sistemática religiosa, por exemplo, seja na vida terrena ou no pós-morte.

Ou seja, os rituais de consumo anteriormente citados, nos levam a compreender o mal-estar, na contemporaneidade, torna-se objeto a ser eliminado, apagando da existência humana o encontro com o real, com a dimensão do sofrimento, nossa maior bússola para notarmos nosso processo evolutivo ao longo dos anos. Apagando-se a tristeza, apaga-se metade (ou mais da metade) da vida de um sujeito.

O consumo da “droga” afeta o estado de saúde daqueles que as consomem. Porém, devemos compreender que para a Organização Mundial de Saúde (OMS), há cinco marcadores para compreendermos o fenômeno saúde de uma forma globalizante: fatores biológicos; psicológicos; sociais; espirituais; e, ecológicos. Estão todos atrelados e são indissociáveis. E na toxicomania, o objeto que entorpece interfere em todas estas instâncias. Pensar o homem em sua integralidade, ajuda-nos a elaborarmos estratégias preventivas para EVITARMOS o consumo abusivo de álcool e outra drogas. A Política de Redução de Danos dentro do SUS, é um ideal a ser alcançado e implementado.

A palavra em caixa alta no parágrafo anterior representa a nossa incapacidade de uma política de guerras as drogas. A psicanálise, nosso maior referencial de entendimento acerca do humano, deixa bem claro que a proibição do uso de substâncias psicoativas não resolve o problema, pois nenhuma política de controle de corpos (biopolítica) ou de subjetividades (semelhantes a obras distópicas como Laranja Mecânica e 1984, como grandes exemplos) dará conta de coibir o desejo humano, tão revolucionário e subversivo. O sujeito (do inconsciente, diga-se de passagem) não reconhece limites para o gozo, recusando de prontidão valores morais consolidados, preconizados por instituições como a família, trabalho e religião. 

A descriminalização e a legalização também não resolverão o problema. Diminuirão os alarmantes índices de violência atrelados ao mercado ilegal da droga e todos os processos de violência ali implícitos. Os leitores aprovariam um Estado que limitasse o consumo de gorduras, medicamentos, restrições ao livre exercício da sexualidade, censuras religiosas ou até mesmo, na pior das hipóteses a abreviação da própria vida (o suicídio)? Creio que não.

Desde tempos imemoriais os indígenas ameríndios e outros povos utilizavam-se da substâncias psicoativas para encontrarem-se com o sagrado e todo o laço social formado através de tais processos. Hoje a droga perdeu sua sacralidade, tornando-se objeto de consumo recreativo, profanada em seu objetivo original.O toxicômano não é mais sujeito perante o significante droga. É apenas o objeto de consumo de si próprio, as custas do esgotamento bioquímico e subjetivo. O sofrimento deixa de existir, o sujeito também. Dessubjetivação e morte física, se não houver o resgate da dimensão desejante em cada um de nós, é o único caminho possível no uso abusivo de álcool e outras drogas. O eterno processo repetitivo de apostar contra si próprio, um suicídio indireto, diga-se de passagem.

A questão principal em nosso debate é a ordem do excesso. Utilizar dos toxicômanos como muletas psíquica e biológica para o sofrimento, sendo que há modos mais interessantes de lidar com os processos de mal-estar, sendo nossa eterna aposta o laço social, tão minado dentro do sistema capitalista. Prevenir e promover a saúde e o laço social: as melhores estratégias de enfrentamento à toxicomania.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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