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SWING FILOSÓFICO – O lado obscuro da lua: o racismo das relações sociais

Racismo: denominação dos comportamentos (sendo comportamento, demonstra intencionalidade no processo) discriminatórios e preconceituoso contra indivíduos e coletividades por conta da sua etnia e cor.

Preconceito: conceitos ou juízos de valores formados de forma antecipada/prévia do assunto tratado, pautados pela inabilidade de analisar fatos e fenômenos a partir de um contato íntimo com o mesmo.

Discriminação: trata-se da ação intencional ou omissão que resulte em tratamento diferenciado (inferiorizado) a indivíduos ou coletivos por conta de fatores como etnia, raça, cor da pele, sexo biológico, nacionalidade, origem étnica, orientação sexual, identidade de gênero, dentre outros.

Segregação: processo de dissociação, afastamento de indivíduos e grupos, que resulta em perca do contato físico, social e afetivo com outros indivíduos e grupos, aos quais existam sentimento de pertença. Afastamento este que se origina por conta de fatores biológicos e sociais, como raça, nível socioeconômico, nível educacional, escolhas religiosas, profissão exercida, nacionalidade, dentre outros.

Todos os conceitos anteriormente citados remetem o leitor a algo grave e corriqueiro, fruto do nosso processo de formação nacional sócio-histórico, naturalizado como algo banal e natural: a violação da dignidade humana dos negros e negras. Trata-se da herança de mais de 300 anos de escravização do povo africano em solo brasileiro, além da quase inexistência de um processo de reparação histórica, possível por meio da “Violência Simbólica” (Bordieu) cometida pelo Estado, cujo projeto é eliminar a alteridade, investindo na “necropolítica” (Achille Mbembe) contra os corpos e subjetividades negras.   

Nesta segunda-feira, para dialogarmos acerca do dia 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, dia que celebra e conscientiza sobre a força, processos de resistência e todo o sofrimento que a população negra viveu no Brasil desde  processo de colonização, compartilhou conosco a bancada Felipe Ferreira, jovem negro, ativista social, acadêmico de Gestão Pública pela Unicesumar, criador do portal Política Varzealegrense e coordenador do Núcleo de Atuação Estratégica e Comunicação da ABC Santa Maria esteve ocupando a nossa bancada, falando acerca da temática acima proposta.

Primeiramente deve-se levar em consideração que durante a colonização, cerca de 4,6 milhões de africanos foram escravizados, trazidos de sua terra para trabalharem em condições humilhantes e degradantes, nas lavouras de cana-de-açúcar, serviços domésticos, mineração e em outras lavouras.

Percebe-se que existe nas relações cotidianas uma banalização do racismo, a ideia falaciosa de que existe uma democracia racial, em um país onde a renda, emprego e o acesso aos bens culturais por pessoas brancas é imensamente superior a pessoas negras, que não possuem pleno acesso a educação, cultura, lazer, habitação, saneamento básico, emprego, saúde, ou seja, são “corpos abjetos” (Judith Butler/Julia Kristeva) prontos a serem descartados, inclusive fisicamente, caso as leis permitissem tal empreitada.

Então são mortes indiretas, provocadas por atos políticos intencionais, voltado ao extermínio da população negra, principalmente os jovens negros entre 15 a 29 anos de idade, principais alvos dos homicídios em solo nacional e da intervenção das forças policiais, a que mais mata no mundo e também os que mais morrem. Ou seja, pobre matando pobre, numa propaganda midiática sensacionalista que vende que estamos em guerra. Contra quem? Eis um tema de redação do Enem, que todos sabem a resposta, mas fingem demência, covardia perante a dor do outro e as violências cometidas contra indivíduos e coletividades.  

O Racismo é estrutural e estruturante em nossa sociedade, evidenciando as desigualdades de raça que insistem em marcar o nosso cotidiano. No senso do IBGE de 2016, as pessoas autodeclaradas pretas e pardas representam a imensa maioria nos índices de analfabetismo e preconceito, além de obter menor renda mensal. Resulta na manutenção de um sistema sociopolítico-econômico excludente. Apenas políticas afirmativas para valorizar os marginalizados e excluídos, serão capazes de fazer a mínima reparação histórica ao afetados pelo nosso histórico de escravidão, o último país do ocidente a abolir a escravatura.    

A elaboração e implementação de políticas focais, que aloquem recursos em beneficio a pessoas discriminadas e vitimadas pela exclusão socioeconômica, sejam no passado ou no presente. Tem como objetivo o combate a discriminações étnicas, raciais, religiosas, de classes socioeconômica, de gênero, que estratifiquem o ser humano a partir de ideais que inferiorizam indivíduos e coletividades. Aumenta a participação de minorias no processo político decisório, no acesso à cultura, educação, saúde, emprego, bens materiais e consumo, a redes de proteção social, e, principalmente ao reconhecimento cultural.

O debate mostrou-se riquíssimo, fundamental para as pessoas que pretendem refletir acerca da importância de nos tornarmos sujeitos antirracistas, que lutem pela igualdade/equidade racial no país, eliminando-se dessa forma, o racismo e as diversas violências advindas desse processo.

Por meio do conversações com Felipe Ferreira e com Ana Camila, mulher negra e feminista (ícone da intelectualidade varzealegrense), trazemos as seguintes sugestões de leitura, para que o leitor possa compreender como ocorrem as relações sociais racistas e as formas de superarem-se tais processos:

  • Racismo Estrutural – Silvio de Almeida;
  • Colorismo – Alessandra Devulsky;
  • Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro;
  • Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo – Gabriel Nascimento;
  • Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra –  Kabengele Munanga;
  • Negritude: usos e sentidos – Kabengele Munanga;
  • Racismo e anti-racismo no Brasil – Antônio Sérgio Alfredo Guimarães;
  • Classes, raças e democracia – Antônio Sérgio Alfredo Guimarães;
  • Beatriz Nascimento, Quilombola e intelectual: possibilidade nos dias da destruição;
  • Primavera para as rosas negras – Lélia Gonzalez

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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