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SWING FILOSÓFICO – Novembro azul e a saúde do homem

No Swing Filosófico desta segunda-feira, tendo como membro convidado da nossa bancada o Dr. Vitorino Júnior, grande médico varzealegrense, tratamos de um debate necessário, o Novembro azul, Mês Mundial de Combate ao Câncer de Próstata, segunda maior causa de morte da população masculina que desenvolve neoplasia maligna (28,6%). Aliado a esse fenômeno, pesquisas realizadas pela Sociedade Brasileira de Urologia apontam que 51% dos homens nunca passaram por consultas com um urologista, profissional especialista do sistema urinário e de reprodução masculina.

Grande parte dos tumores prostáticos levam cerca de 15 anos para atingir 1 cm3, por isso, alguns homens não apresentam sinais da doença durante toda a vida. Interessante levar em consideração que no início do processo de surgimento do câncer de próstata, o mesmo é assintomático, o que, de acordo com as pesquisas estatísticas, apontam que em 95% dos casos o câncer de próstata está em estado avançado, quando seus primeiros sinais aparecem.

A própria organização mundial de saúde (OMS), afirma que em média 42 homens morrem por dia em decorrência da doença e cerca de 3 milhões de homens convivem com o câncer de próstata no mundo. Ou seja, 1 a cada 6 homens irão sofrer com essa problemática. No que se refere ao diagnóstico, a cada 7,6 minutos um caso é diagnosticado, e no referente à mortalidade, em solo nacional, a cada 40 minutos ocorre um óbito em decorrência da neoplasia prostática. Tal entendimento somente é possível por meio da coleta de dados por parte do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Até esse exato momento, tratamos de uma aspecto muito específico de uma questão maior: a saúde do homem. Pensar a saúde do homem é lançar um olhar reflexivo sobre questões fundamentais, como o processo saúde-doença, com cuidados diferenciados, dependendo de qual gênero o indivíduo faça parte. Explicaremos de forma mais detalhada abaixo.

Desde o ano de 2008, existe no Brasil a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), voltado à promoção de ações de saúde contributivas a compreensão da realidade singular (e ao mesmo tempo plural) masculina, dentro dos contextos socioculturais e político-econômicos, respeitando-se, logicamente, os níveis de desenvolvimento e organicidade dos sistemas municipais e estaduais de saúde.

Mesmo que existam normativas para trabalhar-se a saúde do homem, minoria dos que procuram o serviço de saúde em busca da promoção e prevenção em saúde, adentrando o sistema apenas por meio da média e alta complexidade, observa-se que as políticas públicas de saúde tem mostrado pouca efetividade no reconhecimento dos determinantes sociais da vulnerabilidade dos homens ao processo de adoecimento, revelando todos os estereótipos de gênero baseados nas características socioculturais, que normatizam as masculinidades hegemônicas, onde homens performam um ideal simbólico de invulnerabilidade do corpo a processos de adoecimento/fragilidade do corpo.

Mas o que leva a figura masculina a não procurar os equipamentos de saúde? Há dois conceitos fundamentais para pensarmos essa questão: masculinidade frágil e masculinidade tóxica, ambos interrelacionados.

A masculinidade frágil refere-se a ideia de que qualquer coisa que pode tornar-nos “menos homens” (o autor do texto não encontra-se isento dessa lógica de funcionamento). Visto que a masculinidade não encontra-se prêt-à-porter (pronta para usar), é necessário construí-la no cotidiano, portanto, é ansiogênico o ambiente de embate entre egos, carregando diversas obrigações comportamentais entre os pares, cujo objetivo maior é evitar quaisquer formas de ridicularização ou degradação, por demonstrar-se fragilidades ou incapacidades perante o mundo que o rodeia. Solidão danosa, isolamento social, adoecimentos de toda ordem (biológicos, psicológicos, sociais, espirituais e ecológicos) são os frutos da negação da fragilidade humana.

Por outro lado, a masculinidade tóxica é algo tido como danoso para homens e mulheres, pois denota as formas de afetação da masculinidade em relação as figuras femininas, demonstrando como ocorrem as relações de poder dentro do nosso tecido social. expressões como “homem não pode chorar”, “menino não usa rosa”, “não aceite que sua parceria sexual faça algo, porque diminuirá sua masculinidade”, dentre outras expressões machistas cotidianas, demonstra total aversão ao feminino e as todas as suas manifestações. Queremos ao nosso lado, como amigos, companheiros, parentes, colegas de trabalho, pessoas tão destrutivas assim? Ou seria mais interessante rediscutir o masculino e o feminino, para que pudéssemos construir uma sociedade que valorizasse um cultura de paz e de respeito incondicional ao outro?

Lembrando que a categoria gênero é relacional, dizendo respeito as relações sociopolíticas construídas entre homens e mulheres, dos homens entre si no cotidiano e das mulheres entre seus pares genéricos, sendo gênero uma noção de entendimento sobre o humano que perpassa todas as relações sociais, dando total sentido as relações de poder e de dominação atualmente vigentes. Gênero, juntamente com classe e raça, tratam-se de três eixos fundamentais na estruturação da identidade do sujeito, onde podemos acrescentar geração, orientação sexual e religiosa.

À guisa de conclusão, afirmamos de forma clara e objetiva que a prevenção e promoção em saúde do homem somente será possível quando rediscutirmos de forma ampliada a noção de masculino e feminino, fazendo a devida equiparação entre os gêneros no âmbito civil, sociocomunitário e doméstico, demonstrando que o cuidado e o cuidar-se afeta de forma proporcional os gêneros, promovendo qualidade de vida nas relações sociais, pela diminuição dos processos de adoecimento e da violência contida na gênese da produção do masculino.

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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