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SWING FILOSÓFICO – Milton Santos: a geografia do Terceiro Mundo

Como pensar o espaço que frequentamos, onde tecemos as mais diversas relações sociais cotidianas? Seria correto afirmar que o espaço geográfico minimiza ou amplia nossas possibilidades vivenciais? Como pensar uma geografia com um olhar voltado para o Terceiro Mundo? A globalização é um fenômeno positivo ou negativo? Tais questionamentos foram amplamente discutidos pelo prisma do pensador discutido nesta segunda-feira, o intelectual brasileiro, Milton Santos.

Como convidado de honra em nossa bancada, Professor Dr. Leandro Lima, docente do IFCE Iguatu, na área de Geografia Humana, que de forma brilhante, ampliou horizontes com suas valiosas contribuições. Mas afinal de contas, quem foi Milton Santos?

Homem negro, morador de um país periférico do hemisfério sul, geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado, intelectual e professor universitário brasileiro. O primeiro e um dos únicos geógrafos do “mundo subdesenvolvido” a conquistar, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, tendo como demais ganhadores o Nigeriano Akin Mabogunje (2017) e a singapurense Brenda Yeoh (2021). Cabe um valioso questionamento se a própria escolha de intelectuais não estaria atrelada ao contexto eurocêntrico e anglo-saxão. Agora, passemos a discutir as suas mais valiosas contribuições ao campo científico.

Milton Santos acredita que o espaço não limitava-se apenas ao território físico, conforme entendimento da geografia descritiva, mas preconizava a importância do território existencial para o ser humano. Pensar o espaço é debruçar-se sobre temas como cidadania, território, demografia, migrações e geografia urbana. Ao tratar das realidades locais brasileiras, pensou os aspectos humanos existentes por trás dos estudos da geografia. Dessa forma, adota-se uma postura crítica em relação ao Sistema Capitalista.

Assim, pensar o espaço/território é pensar nas populações que o ocupam, principalmente os coletivos mais empobrecidos. Milton santos, aliado a outros intelectuais, propõe uma “Geografia Nova”, tendo como principais marcadores a crítica ao poder e a predominância do pensamento marxista (histórico dialético). Defende-se aqui, o caráter social do espaço, que deveria tornar-se o principal objeto de estudo do geógrafo (caráter filosófico da geografia).  

No que se refere à globalização, tece pesadas críticas a esse modelo de expansão econômica, política e cultural a nível mundial. Torna-se dessa forma, um dos seus críticos mais ferrenhos. Afirmava de antemão a perversidade deste modelo, por não ter, de antemão, finalidade na sua operacionalização. Percebe a globalização como globalitarismo, porque além do pressuposto não democrático desse processo, tem como objetivo-fim de tornar-se o bastião das grandes multinacionais e dos países hegemônicos, tratando-se de um sistema totalitário imposto na vida cotidiana. Essa sistemática somente tornou-se possível pelo “boom” dos mercados financeiros globais, coordenado pelas instituições financeiras, articuladora dos mercados financeiros globais no interior dos Estados-Nações.

Inclusive, um dos conceitos mais difundidos e explorados pelo geógrafo é a noção de “meio técnico-científico informacional”, que significa a transformação do espaço natural realizada pelo homem a partir do uso de técnicas difundidas graças aos processos de globalização e à propagação constante de novas tecnologias.

Numa de suas mais difundidas obras, reconhecida mundialmente, intitulada “Por uma outra globalização”, lida por teóricos de diversas áreas do conhecimento, dividiu o fenômeno da globalização em três perspectiva distintas: “globalização como fábula”, “globalização como perversidade” e “globalização como possibilidade”. Elucidemos cada uma delas abaixo.

A “globalização como fábula” relaciona-se aos mitos que a cercam, como valores da aldeia global, contrações de espaço e tempo, velocidades presentes do cotidiano e a desterritorialização. O ideal de aldeia global mediadas pelas tecnologias da informação é ilusório, haja visto o acesso desigual a tais processos. A percepção do tempo, espaço e distância varia, além da velocidade do cotidiano. Seriam os ideais vendidos acerca das bonanças possíveis por meio da globalização.   

Por sua vez, a “globalização da perversidade” trata-se do mundo tal como ele é, baseia-se em duas formas de violência: a tirania da informação (a forma como os construtos informacionais são distribuídos a humanidade) e a tirania do dinheiro (motor da vida econômica e social). São violências alicerçadas num nível de pensamento único, fundantes de uma lógica existencial totalitaristas, cujos pilares de atuação são a competitividade, consumo e confusão dos espíritos (denominada de globalitarismo).

Por fim, a globalização como possibilidade seriam os outros destinos possíveis para o processo de globalização, a partir da discussão do que seria a Civilização. Pode tornar-se um processo humano, por meio da desvinculação da sua base financeira, rediscutindo-se cidadania por meio de uma perspectiva humanizada e democrática. 

Por mais incisivos e producentes que possamos ser acerca da obra miltoniana, levaríamos extensas semanas para dissecar a obra de tão valoroso autor. Nossa série pensadores serve muito mais para despertar o interesse do público ouvinte em conhecer os nossos grandes referenciais do cotidiano, por meio de sua vida e obra, do que um entendimento final da vida e obra de Milton Santos.

Indicamos preciosas obras do autor, para que o nosso leitor possa aprofundar seus estudos sobre o mundo e suas territorialidades, são elas:

  • Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia (1953)
  • O Centro da Cidade do Salvador (1959)
  • A Cidade nos Países Subdesenvolvidos (1965)
  • Por uma Geografia Nova (1978)
  • O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo (1978)
  • A Pobreza Urbana (1978)
  • O Espaço Dividido (1979)
  • A Urbanização Desigual (1980)
  • Manual de Geografia Urbana (1981)
  • Pensando o Espaço do Homem (1982)
  • Espaço e Método (1985)
  • O Espaço do Cidadão (1987)
  • Metamorfoses do Espaço Habitado (1988)
  • Metrópole Corporativa Fragmentada (1990)
  • A Urbanização Brasileira (1993)
  • Técnica, Espaço, Tempo (1994)
  • A Natureza do Espaço (1996)
  • Por uma Outra Globalização (2000)
  • Território e Sociedade (2000)

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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