Saturday, December 3A força da nossa voz!

SWING FILOSÓFICO – A psicologia do chifre

Iê, infiel

Eu quero ver você morar num motel

Estou te expulsando do meu coração

Assuma as consequências dessa traição

Infiel – Marília Mendonça

E fora o chifre, tá tudo bem? Brincadeiras à parte, estimado leitor, no programa desta segunda-feira, tratamos de uma temática bastante atual e também polêmica: a Psicologia do Chifre. Falar sobre a infidelidade é ir de encontro a estatísticas que são no mínimos curiosas: 40,5% da população brasileira, em média, admite ter cometido infidelidades contra os parceiros, sendo 50,5% dos homens, enquanto 30,2% são mulheres, conforme pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), a Mosaico 2.0.

Como primeiro ponto de análise, deve ser levado em consideração que, da mesma forma que o ideal de monogamia e fidelidade foram construídos e constituídos ao longo dos séculos, a infidelidade também é uma construção social, tanto quanto a anteriormente citada. Semelhante ao sagrado e o profano, que sempre andam lado a lado, fidelidade e infidelidade são espectros de um mesmo fenômeno: as relações afetivossexuais humanas.

No livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, Friedrich Engels afirma que a monogamia nunca tratou-se do amor sexual individual, haja visto que os casamentos antes e agora permaneceram atos de conveniência. Tratou-se, no caso, da primeira forma de família não baseada nas condições naturais, mas de uma construção sócio-histórica, econômica e cultural. Trata-se, segundo este mesmo autor, do triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum coletiva. Desde os gregos antigos, possuía-se o entendimento que a preponderância da masculinidade pautava-se na procriação de filhos para herdar os bens dos mesmos. A necessidade de herdar-se algo do pai, nesse momento, já possuidor da acumulação de bens dentro das sociedade primeva, garantiria a descendência da prole por meio do controle da sexualidade feminina (a mulher só mantem relações sexuais com o mesmo).

Para os defensores da não-monogamia, essa terminologia é um termo “guarda-chuva” para formas de relacionamento e filosofias contra-hegemônicas, que buscam romper com a lógica monogâmica de organização dos afetos. Seria, no caso, um ato/projeto político, estendendo a monogamia não como uma prática, mas como uma estrutura de dominação. A não-monogamia, desviando-se da normatização social, seria além de um ato de resistência, um projeto coletivo e emancipatório.

Afinal de contas, o que é a infidelidade? Pode-se considerar a traição/infidelidade conjugal como a perda de exclusividade de um dos parceiros na sua relação a dois. Podemos elucidar esse fenômeno a partir de três perspectivas específicas:

Infidelidade sexual: há, aqui, a predominância de comportamentos sexuais com outros parceiros. Percebe-se que também considera-se traição como o ato intencional de pessoas que não se manifestem como melhor amigo(a), melhor marido (esposa), melhor pai (mãe) ou até melhor amante. Qualquer ato que vá contra a expectativa de outrem, passa a ser visto como infidelidade.

Infidelidade emocional: quando a traição ocorre a nível sentimental, por meio do desenvolvimento de sentimentos românticos por outro parceiro.

Infidelidade online (virtual): apesar de não haver contatos físicos, em muitas das vezes, há o flerte, a criação do desejo por outrem, que pode culminar em comportamentos sexuais ou no desenvolvimento de sentimentos românticos. Provoca os mesmos efeitos negativos de outros tipos de infidelidades. Uma interação virtual pode ser interpretada como algo tão grave quanto uma traição a nível físico, levando ao término do relacionamento.

A traição, apara os enamorados, é uma das situações mais temidas ao aceitar-se o relacionamento com outrem. Desde que a vida é vida, existem relações extraconjugais, reconhecendo-se o lugar de privilégio da masculinidade na livre expressão da sexualidade e na permissividade social ao cometimento de tais atos intencionais, que quebram o contrato social (Rosseuau) pressuposto na monogamia. A literatura e a arte trazem bons exemplos de casos de infidelidade e suas consequências.

Bauman em seus sábios ensinamentos afirma de forma categórica que nas relações da modernidade liquida, a insegurança torna-se a égide das relações, acentuada de forma violenta pelas relações virtuais. O ciúme, sentimento de possessão sobre o outro, é ampliado pela facilidade e a rapidez das comunicações com pessoas afins por meio das redes sociais. Ferramentas como o arquivamento do histórico de conversas, mensagens enviadas e recebidas e recados trocados em redes sociais são fundamentais para a definição de infidelidade na atualidade. Invasão da privacidade de torna cada vez mais comum, isto é, o público torna-se o novo privado. Da mesma forma que checamos correios eletrônicos, podemos experimentar a sensação de conhecer alguém e relacionar-se, pressupondo que se não há aproximação, não há traição.

Por fim, deve-se levar em consideração que os motivos que levam alguém a trair são variados, ou seja, trata-se de um fenômeno multifatorial. Mas o principal fato que está atrelado a infidelidade, praticamente de forma universal refere-se aos sujeitos que se colocam numa relação de fidelidade obrigatória e não de forma espontânea, por livre escolha. Teríamos como solução para a garantia da fidelidade, a fidelidade do amante consigo próprio e com as singularidades do seu desejo, sendo honesto com suas sentimentalidades. Ou seja, desejar não possuir outras pessoas que não sejam o seu companheiro(a). Lembrando sempre que qualquer mudança no regime de relacionamento deve ser discutida e dialogada com o outro parceiro (a).

Luis Fernando é graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Unileão, Especialista em Teoria Psicanalítica, Gestão Estratégica de Políticas Públicas e Mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas. Perito Judicial do TJ/CE e Psicólogo Clínico na Clínica Laços. Apresentador do Programa Swing Filosófico, pela Rádio e TV Atual Online. Amante de gatos e produtor de conhecimento.

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